domingo, 22 de fevereiro de 2009

A verdadeira causa da crise financeira

A raiz da questão:A presente crise está sendo apresentada como um problema técnico causado pelo excesso de facilidades na contratação de hipotecas, e empréstimos feitos sem adequadas garantias, que pode ser tecnicamente resolvido pela aplicação de providências adequadas, como baixar ou elevar taxas de juros, ou injetar recursos públicos para a salvação de bancos insolventes.

Na verdade a situação é extremamente mais grave do que isso, porque tudo indica que a semi-esquecida crise energética detonou um processo sem volta de desmoronamento do sistema financeiro mundial, baseado na criação moeda lastreada exclusivamente em papel, e num mecanismo de endividamento crescente, que pressupõe a ilimitada expansão da economia.


O mecanismo de criação da moeda

Antes de mais nada é fundamental entender porque o sistema de criação dos meios de pagamento pelos Bancos Centrais funciona como uma “corrente de cartas” ou “pirâmide financeira”, indistinguível das perseguidas pela polícia quando montadas por vigaristas ambiciosos.

O procedimento é bem semelhante, em todos paises que operam com Bancos Centrais. Digamos que, no Brasil, se pretenda expandir a base monetária em 10 bilhões de reais:

1) Com esse objetivo, o Tesouro Nacional imprime (ou promete imprimir) uma certa quantidade de papéis lindamente impressos, no valor nominal de 10 bilhões de reais, e os entrega ao Banco Central, que em troca deposita nas contas do Governo, no Sistema de Bancário Nacional, 10 bilhões de reais, que passam a integrar os meios de pagamento. Esse depósito pode ser feito em Notas de moeda corrente, também lindamente impressas, ou ser simplesmente realizado por via eletrônica.
2) Nesse ato o Governo passa a ser devedor não só do total depositado, mas também dos juros correspondentes às Letras do Tesouro adquiridas pelo Banco Central.
3) A legislação em vigor determina que os bancos que fazem parte do Sistema Bancário estão autorizados a emprestar ao público uma elevada fração, normalmente 90%, dos depósitos neles feitos. Sendo assim, eles podem, logo de inicio, emprestar -- e efetivamente o fazem, pois seus lucros provém disso – 9 bilhões de reais.
4) Desse momento em diante ocorre uma coisa inacreditável, que se assemelha ao “milagre da multiplicação dos pães e peixes”: os 9 bilhões de reais se transformam, em operações sucessivas, em 90 bilhões de reais emprestados ao publico usando “moeda escritural” -- que é um nome impressionante aplicado a um dinheiro que os bancos emprestam sem ter, simplesmente criado “do ar”.
5) A mecânica disso é ridiculamente simples:
a) Quando os bancos emprestam os primeiros 9 bilhões a seus clientes, eles fazem isso simplesmente dando entrada num crédito escritural na conta de cada um deles, totalizando 9 bilhões de reais.
b) Se esses recursos são movimentados ou não, pouco importa, os saques feitos em cheque ou moeda voltam sempre como depósitos, ao mesmo banco, ou em outro, do Sistema Bancário. Os 9 bilhões emprestados constituem assim, para todos fins legais, depósitos distintos que dão aos bancos direito de emprestar 90% desse valor – ou seja, mais 8,1 bilhões.
c) Esses novos empréstimos ao serem creditados (“depositados”) nas contas dos clientes geram o direito de emprestar mais 90% de 8,1 = 7,29, e assim por diante, um número infinito de vezes.
d) O total emprestado, portanto é
9 + 0,9 x 9 + (0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + .....
Os que fizeram o ginásio no tempo em que se aprendia alguma coisa já perceberam que trata-se da soma dos termos de uma progressão geométrica decrescente, infinita, cujo termo inicial a1= 9 e a razão q = 0,9.

A fórmula que fornece o resultado é
S = a1 / (1- q) = 9 / (1-0,9) = 9 / 0,1 = 90;

90 bilhões !!

6) Em suma, cada 1.000 reais em moeda criada pelo Banco Central gera 10.000 reais de dívidas sendo 9.000 em dinheiro criado “do ar” pelos bancos, para os bancos, sem contar as taxas e juros.

A respeito desse fato me vem á lembrança as palavras de um conhecido meu, que depois de ganhar muito dinheiro como incorporador e virar financista e banqueiro, comentou certa vez:

“É incrível como é fácil criar dinheiro. Basta anotar um crédito na conta de alguém que ele sai assinando cheques. E o melhor é que ele me paga de volta esse dinheiro que não dei. Se eu tivesse sabido disso antes, não teria perdido tanto tempo tentando ganhar dinheiro de outro modo”.
Porque o sistema está fadado a implodirO que determina a instabilidade fundamental do Sistema não é o dinheiro fácil ganho pelos banqueiros, é o fato de que os 90 bilhões de reais de dinheiro novo criado por eles tem efeito inflacionário, adquirindo valor pela via da desvalorização do conjunto da base monetária.

Além disso, toda essa bolada de dinheiro – isto é, os 10 bilhões iniciais criados pelo Banco Central e os 90 bilhões criados pelos bancos, tem que ser pagos com o acréscimo de juros, digamos 12%, ou 12 bilhões de reais, isto é, a quantidade de dinheiro que é devida aos bancos será sempre maior que a quantidade de dinheiro (moeda corrente + depósitos bancários) existente em circulação.

Isto quer simplesmente dizer que um Sistema Financeiro operando dessa forma baseia-se na obrigação de pagar juros com um dinheiro que não existe -- nem existirá, caso não se providencie a expansão da base. O que gera a necessidade da expansão permanente da economia para torna-la capaz de contrabalançar o volume de dinheiro ciclicamente criado -- condição sine qua non da preservação do Sistema.

Em suma, do mesmo modo que na “pirâmide financeira” ou na “corrente de cartas”, que fica cada vez mais difícil de ser mantida porque exige um volume cada vez maior de dinheiro, um Sistema Financeiro baseado na dívida fatalmente entra em processo de quebra, desabamento, derretimento (palavras que começam a ser ouvidas, ultimamente) quando atinge o ponto em que se torna impossível conseguir participantes capazes de manter a roda girando com a velocidade suficiente.

Desde 2001 a economia americana começou a emperrar, exigindo juros mais baixos e facilidades cada vez maiores para encontrar tomadores de empréstimo nas proporções necessárias.

A partir de 2005, o começo de recessão causada pelos altos custos de energia, fez com que as pessoas tivessem menos dinheiro para consumir ou pagar dividas.

Para que um sistema financeiro funcione é fundamental que os tomadores de empréstimos paguem suas dívidas. O aumento da inadimplência desaqueceu a maior economia do planeta e contaminou os parceiros globais que haviam investido trilhões de dólares no mercado de papéis derivativos, garantidos por duvidosas hipotecas e outros títulos afins

Instalou-se assim a crise sistêmica global:

1) os bancos estão insolventes porque seus empréstimos estão garantidos por ativos sem valor; 2) a recessão econômica interrompeu o crescimento ininterrupto que viabiliza o sistema baseado na dívida; 3) não há como estimular a economia inundando os bancos com dinheiro que o público hesita em tomar, e que os bancos receiam emprestar, porque não confiam nos tomadores.

Para todos os efeitos o sistema quebrou. A única coisa que está mantendo a estrutura colada é a enorme fé no poder do Estado, e a visão desenvolvimentista de que déficits não tem muita importância, associada aos economistas da chamada “Escola de Chicago”.

Outros cansaram de pregar no deserto a verdadeira verdade que um sistema como esse, baseado no aumento da dívida pública e privada, levará fatalmente à insolvência dos devedores, ao desaparecimento da base financeira, e à desintegração do Sistema Financeiro Internacional.

Resta aguardar o desfecho, para ver quem tem razão.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

“A normalidade da incompetência”



Na década de ’70 tive a oportunidade de ler um livro muito interessante, “O Princípio de Peter, ou As Leis da Incompetência” (The Peter Principle – de Lawrence Johnston Peter, 1969) que recomendo a todos porque, além de alertar sobre cuidados adicionais que devemos ter ao promover pessoas, em nossas próprias organizações, esclarece os motivos porque devemos sempre desconfiar da competência dos indivíduos que estão no topo da pirâmide, até de nós mesmos, quando nos situamos no cume.

O Principio de Peter afirma que em instituições estruturadas em posições de crescente responsabilidade, preenchidas pelo critério de competência, as vagas são ocupadas por indivíduos que demonstraram competência nos níveis inferiores e que vão sendo promovidos até atingirem seu nível de incompetência.

Fica assim perfeitamente explicada a completa desorientação que vem sendo demonstrada por Henry Paulson, Secretário do Tesouro Americano, altamente experiente no mundo dos Bancos de Investimento e na compra e venda de papeis de todo o tipo, mas que tem demonstrado um alto grau de incompetência nas desastradas tentativas de administrar uma crise pela qual, como presidente da Goldman and Sachs, foi um dos mais criativos e influentes responsáveis.

Em Setembro de 2008 ele começou resolvendo salvar Bear Stearns mas em seguida mudou de estratégia, permitindo o colapso de Lehman and Brothers, o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, que ao ter seus ativos liquidados na praça causou um efeito em cascata que desvalorizou os ativos de outros gigantes periclitantes como AIG - American International Group e o Citigroup.

Em ato continuo o Paulson conseguiu do Congresso permissão para usar 700 bilhões de dólares para salvar a situação comprando os “ativos podres” dos bancos.

Mas, se o governo pagar o preço correto por esses papeis praticamente sem valor, os bancos serão obrigados a reconhecer pesadíssimas perdas, tornando pública sua situação de insolvência.

Se, de outro modo, o preço pago por esse “refugo” for suficientemente alto para salvar os bancos, os 700 bilhões bastariam só para uma pequena fração dos ativos duvidosos.

Quando isso ficou claro, Paulson desistiu da compra de “ativos podres” anunciando que em vez disso usaria os recursos do governo para adquirir ações dos maiores bancos, fornecendo assim o capital destinado a estimular a concessão de empréstimos.

Verificou-se em seguida que a maioria, se não a totalidade, das instituições, está insolvente, a começar pelas maiores, como o Citigroup, virtualmente “nacionalizado” nesta ultima semana de Novembro -- embora por razões ideológicas todos evitem admitir que está ocorrendo um crescente processo de nacionalização das instituições financeiras.

O caso do Citibank é emblemático de uma situação de impossível solução.

No curso das urgentíssimas decisões de Setembro, levando em conta que em seus balanços o Citigroup apresentava ativos correntes superiores a 2.000 bilhões de dólares Paulson determinou que o grupo absorvesse o Wachovia Bank, um banco enorme, que estava na iminência de quebrar.

Menos de oito semanas depois foi a vez do Citigroup revelar-se na mesma situação.

Com o seu valor de mercado reduzido a menos de 10% do que era em 2006, e na iminência do colapso – o Citigroup e o Governo americano identificaram otimisticamente um conjunto de cerca de 300 bilhões de dólares de ativos problemáticos (menos de 1% do total de papeis derivativos) e acordaram um complicado negócio de transferência de ações que na pratica levará o governo a absorver todas as perdas acima de 55 bilhões, e com elas, o Grupo inteiro.

Tornando ainda mais séria a situação, o Citigroup tem uma carteira maciça de cartões de credito – 185 milhões de contas em todo o mundo – que mesmo antes dos recentes episódios estava apresentando perdas por inadimplência 67% maiores que as de um ano antes e, pior que isso, com um número de clientes com mais de 90 dias de atraso muito acima desse patamar, prenunciando uma segunda onda de inadimplências que vai se somar à das hipotecas e agravar a situação dos "derivativos".

Pois, importante realmente é o fato de que do total mundial de mais de 500 trilhões de dólares de papeis derivativos (
ver postagem de 25.10.2008 - a "bomba de destruição em massa"), identificados pelo BIS (Bank of International Settlements), 181 trilhões eram ativos de bancos americanos, mais 95% deles resultando de negócios feitos diretamente entre comprador e vendedor ("over the counter"), sem intervenção de qualquer agência intermediária ou reguladora.


Desse total 168 trilhões concentram-se em três grandes grupos, sendo um deles o Citigroup.

Segundo os dados de 2008 do OCC (Office of the Comptroller of the Currency), a principal unidade do grupo, que é o CitiBank, tem em seus ativos algo da ordem de 37.100 bilhões (37,1 trilhões) de dólares dependentes de papeis derivativos, mais do que cinco Lehman Brothers, cuja falência já trouxe à beira do abismo o sistema financeiro mundial.

O risco do Bank of América é ainda maior -- 39,7 trilhões.

E o JPMorgan Chase, o maior de todos, com o dobro disso: 91,3 trilhões. Isto é, apenas um banco fazendo apostas de imenso risco, envolvendo uma quantidade de dinheiro equivalente a 13 Lehman Brothers, mais de 6 vezes a produção total da economia dos Estados Unidos !!

A escala das perdas escondidas nessa sinfonia de trilhões é tão enorme que, se não ocorrer antes, é bem possível que um dos primeiros atos do novo Presidente Barak Obama tenha que ser a decretação de um feriado bancário, seguido da completa nacionalização dos grandes bancos, de modo a assumir todos ativos podres e as correspondentes perdas, na esperança de fazer novamente fluir os mecanismos de credito emperrados.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

E agora... e o petróleo ???



Com a economia em expansão é certo que o preço do barril de petróleo tenderá para as alturas sempre que houver pouca folga entre a demanda e a capacidade máxima de produção.

Foi o que ocorreu à partir de 2006, até o primeiro semestre de 2008, quando a demanda mundial por combustíveis líquidos, oscilando no entorno dos 85 / 86 milhões de barris/dia ficou igual ou ultrapassou a capacidade de produção – causando a baixa dos estoques comerciais e estratégicos e levando os preços do barril de petróleo para mais de US$ 120.

A partir de julho de 2008 a queda de consumo nos paises desenvolvidos foi suficiente para gerar uma pequena folga entre demanda e capacidade de produção.

Esse fato, somado às repercussões econômicas da crise financeira, levou rapidamente o preço do barril para menos da metade do que chegou a custar em julho.

No corrente mês de novembro os dados fornecidos pelos relatórios “Short-Term Energy Outlook”, da USA Energy Information Administration – EIA, e “World Energy Outlook”, da International Energy Agency - IEA (ONU), ambos datados de 12.nov.2008, nos fornecem uma boa perspectiva da provável evolução da situação.

Os números apresentados mostram que, à despeito da crise, o crescimento da demanda em países não pertencentes à OECD (Organization for Economic Cooperation and Development), especialmente a China, América Latina e países exportadores do Oriente Médio, deverá compensar mesmo fortes declínios de consumo nos Países da OECD -- como está ocorrendo em 2008, onde apesar da queda de 1 milhão de barris por dia, constatada no consumo americano, está se verificando um aumento global do consumo da ordem de 100 mil barris diários.

Desse modo, a demanda por hidrocarbonetos líquidos (petróleo convencional + não convencional + líquidos condensados do gás + ganhos de refinaria + bio-combustíveis + sintéticos) até o final de 2008 está se mantendo na faixa dos 87 milhões de barris por dia, em media, sendo 74 milhões referentes a óleo cru (petróleo) -- níveis que se projetam virtualmente estáveis em 2009.

Mas o exame dos dados da EIA revela taxas de declínio anuais na produção de óleo cru que chegam a ultrapassar 20% nos campos de águas profundas -- que são os que decaem às maiores taxas -- sendo de 6,7% ao ano a media ponderada referente ao declínio da produção do conjunto dos campos atualmente existentes, o que significa a necessidade de aumentar cada ano a produção total (petróleo novo + líquidos em geral) em cerca de 5 milhões de barris diários (6,7% x 74 = 4,96), apenas para manter a produção global estabilizada.

Para atender ao crescimento da demanda após uma crise de curta duração a EIA projeta que até 2030 seria necessário somar 64 milhões de barris por dia à produção presente, o que exigiria um investimento absolutamente colossal, ano após ano, coisa virtualmente impossível em caso de depressão prolongada, e que exigiria preços do petróleo na casa dos US$ 80 / US$ 100, que é o mínimo custo estimado do barril adicional de petróleo extraído de águas profundas ou de jazidas de areias betuminosas como as do Canadá.

De qualquer modo, neste seu relatório de 2008 a IEA está prevendo para 2030 um preço de US$ 200 por barril, numa primeira demonstração de que está começando a reconhecer a verdadeira dimensão de uma crise enormemente subestimada nas avaliações anteriores.

Em suma, quanto mais demorar o retorno ao patamar de US$ 100 dólares o barril, mais provável será que  por falta do investimento adequado a queda de produção venha a tornar difícil  satisfazer a demanda, mesmo que ela, 
catastroficamente, se estabilize, ou lentamente se eleve acima do atual nível dos 85 / 86 milhões de barris diários.

sábado, 8 de novembro de 2008

Mas então...porque o dólar subiu ??



É.

O dólar ultimamente valorizou-se até 30% com relação a algumas moedas, chegando a 40% com relação ao real.

E agora os mesmos “especialistas” que juravam pelos fundamentos sadios da economia mundial e se mostraram completamente incompetentes para perceber o tsunami que se alevantava, elogiam as providências tomadas e “explicam” a alta do dólar como resultado dos Estados Unidos estarem enfrentando a crise com mais decisão do que o resto do mundo...

...quando, na verdade, essa valorização do dólar não passa de um incidente de prazo curto, inteiramente explicável pela enorme quantidade de recursos que os “hedge funds” e os demais atores do mercado global estão repatriando -- para cobrir suas perdas, ou para assumir posições de menor risco que ainda são atribuídas à moeda americana.

Trata-se de um movimento reflexo que não tem nada a haver com os fundamentos do dólar, que só tem piorado pela insistência em resolver a crise financeira pela via do aumento de liquidez numa situação que é, basicamente, de insolvência em grande escala, não de falta de liquidez.

Não foi por outra razão que o dólar valorizou-se mais fortemente com relação às moedas dos paises envolvidos no chamado “carry trade”, como o Brasil -- um país de economia robusta, forçado a manter elevadas taxas de juro para controlar o superaquecimento econômico e a inflação, onde os “hedge funds” e investidores de todo o tipo vem há muito tempo aplicando a 17% ao ano dinheiro tomado a juros mais baixos, seja, praticamente a 0%, como no caso do Yen, ou 1% em Francos Suíços, 2,25% em Euros, ou Dólares a 4,5%.

Como, em nosso país, grande parte do saldo do comércio exterior volta para lá, sob a forma de remessa de lucros e serviços, nossas reservas se acumulam lentamente, e porisso, além de reféns do valor do dólar -- que ao cair dilui seu valor -- boa parcela das tão badaladas “reservas brasileiras” de 200 bilhões de dólares fica compromissada com esse “dinheiro quente”, aplicado em ativos de grande liquidez, que tendem a sair rapidamente e que para isso necessitam adquirir grande quantidade de dólares, levando a taxa de cambio às alturas.

Porque a ninguém interessa a excessiva valorização do dólar, nem agravar as perdas dos investidores estrangeiros devidas à queda acelerada das ações brasileiras na Bolsa, o FED ofereceu ao Banco Central do Brasil uma operação de troca de moedas correspondente a um empréstimo de 30 bilhões de dólares, sem juros, para arrefecer o ímpeto e evitar que a evasão assumisse dimensões catastróficas.

Desse modo, embora a retomada da queda do dólar seja uma aposta fácil de ganhar, perdas irreversíveis vem ocorrendo e já ocorreram no Brasil porque o BC havia antes da crise estimulado as empresas brasileiras a especular com moedas em baixa, para compensar os prejuízos que o valor baixo do dolar causava às exportações.

A inesperada subida do cambio causou bilhões de prejuizo. Assim, com toda a ajuda do governo, pode-se contar com dias difíceis à partir de 2009, já que com a queda de preço das commodities o saldo comercial tenderá a zero, as empresas que tiveram grandes perdas reduzirão seus investimentos, e as remessas de recursos ao exterior continuarão elevadas, tendendo a aumentar o déficit externo.

Mas embora, historicamente, o dólar se beneficie nos episódios de fuga-para-a-qualidade que acontece quando cessa o carry trade, nas atuais condições não se pode esperar que a moeda de um país com 1 trilhão anual de déficit externo possa manter-se nessa posição por muito tempo.


Acima de tudo, não se pode esquecer que o Pico do Petróleo parece haver finalmente chegado, em 2008.

Ainda está pouco divulgado, mas há alguns dias o “The London Financial Times” informou que o relatório da IEA (International Energy Agency) a ser publicado no próximo dia 12 de Novembro estimou a queda de produção de petróleo na ordem de 9.1% ao ano, em média, nos próximos anos, nos campos que já ultrapassaram o pico, enquadrando-se no conjunto das previsões mais pessimistas.

Considerando que o pior do colapso econômico ainda não chegou, esse fato, por si só, mostra que não existe possibilidade de recuperação econômica a nível mundial.

Em termos de produção de petróleo, devido às características de demanda inelástica e da dependência econômica ao produto, tanto por parte dos produtores como dos consumidores,  pode-se esperar com certeza que independentemente das oscilações de preço  os produtores continuarão a produzir o máximo que puderem e os consumidores comprar o máximo que tiverem condições de comprar. 

Nesse contexto, porém, o Brasil se destaca de modo singular, não apenas por ter condições de alcançar auto-suficiência energética, mas por ter uma equipe econômica de nível internacional, temperada pelo sucesso no enfrentamento de graves crises regionais e mundiais, e que tem podido contar – ao contrario do que tem ocorrido, por exemplo, na Argentina – com o decidido apoio de um empresariado local, que tem se mostrado disposto a defender a moeda e os objetivos nacionais.

Parece que está se tornando próximo o momento em que nos desatrelaremos do dólar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

The Glenn Beck Program - 13.10.2008

O link abaixo leva a um vídeo clip legendado em espanhol que merece ser visto, menos pelo duvidoso conteúdo e mais porque ele mostra que, aparentemente, está "caindo a ficha" de que a situação do dólar é insustentável, e os americanos mais bem informados estão beirando o pânico absoluto.

Note-se que o programa é de excelente nível, Glenn Beck é conhecido nacionalmente como um comentarista conservador, com programa difundido pela CNN, Fox, e as principais redes de TV americanas.

Clicar aqui para ver o You Tube Vídeo

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um Cenário Hipotético

Há cerca de um ano (setembro/outubro de 2007), motivado pelo que foi exposto no “O Crepúsculo do Petróleo”, o Coronel Gélio Fregapani -- então integrante dos quadros da Agência Brasileira de Informações (ABIN) -- enviou para publicação na Revista de Inteligência o cenário hipotético sintetizado abaixo, que tem se revelado impressionantemente correto até o momento

Só o tempo dirá sobre o acerto do GEAB n° 28, publicado em 15.10.2008, que emite alerta sobre a ocorrência do INEVITAVEL colapso do dolar, com suspensão de pagamentos aos credores de papeis garantidos pelo governo (Letras do Tesouro, ações de Fannie Mae e Freddy Mac, etc) e emissão de um “Novo Dólar”.



O BRASIL E O FUTURO
Com todas as luzes vermelhas piscando, diante de um cenário de convergência de crises, nosso País se destaca como um dos mais bem dotados para sobrenadar no que tende a se tornar um embate feroz pela sobrevivência. O colapso energético-financeiro afeta em primeiro lugar e de forma mais contundente ao primeiro mundo, mas ninguém sai incólume. O setor exportador terá, de imediato, prejuízos brutais, que se refletirão imediatamente nos setores primários da produção.

Graças a estatura de país-continente e aos investimentos estratégicos das eras Vargas, Kubitshek e nos 20 anos do governo Militar, o Brasil já havia chegado muito perto da auto-suficiência, e agora não haverá outra saída senão descolar-se completamente da área do dólar e se tornar completamente autárquico, mantendo a economia doméstica em funcionamento através de investimentos na indústria, na agricultura e nos biocombustíveis, financiados em moeda própria. É escolher entre afundar com o primeiro mundo ou permanecer a tona do melhor modo que for possível. 

sábado, 25 de outubro de 2008

Alerta de Tsunami 2 - Enviado em e-mail circular de 30.09.08

Dia 15 de setembro enviei o "alerta de tsunami" econômico-financeiro reproduzido no final deste e-mail.

Para os que possam pensar que estou sendo muito “catastrofista”, quero chamar a atenção para o fato de que o incrível volume de 45 trilhões de dólares de papéis derivados do mercado de hipotécas americano, de per si inadministravel, foi pelo menos decuplicado pela extensão à economia mundial do mecanismo de criação dos chamados "hedge funds", da seguinte maneira:

a) num primeiro passo grandes Bancos de Investimento operando globalmente encorajaram (até mesmo fornecendo capital) Bancos Comerciais a fazerem empréstimos hipotecários.


b) em seguida os Bancos de Investimento compraram os direitos sobre estas hipotécas e as empacotaram junto com papéis vindos de diversos bancos e regiões do mundo, em grandes conjuntos chamados RMBS (Residencial Mortgage Backed Securities => Papeis Garantidos por Hipotécas Residenciais).


c) Os RMBS foram em seguida grupados em categorias ("prime", "ALT-A" e "sub-prime") segundo sua qualidade inicial e divididos em até 15 “tranches” (sub-conjuntos de rendimento crescente), classificadas por agencias especializadas em graus crescentes de risco, sendo AAA os de menor risco, depois AA, e assim por diante, até os de mais alto risco (que rendiam mais) denominados “equity” (“saldo”).


d) Como, apesar do melhor rendimento era muito dificíl conseguir investidores para as “tranches” de maior risco, os Bancos de Investimento passaram a empacota-las com outras de melhor nível, num outro tipo de papel chamado CDO (Collateralized Debt Obligation), que era por sua vez dividido em “tranches” levadas à classificação pelas agencias de risco, sendo as de maior nível classificadas AAA, e assim por diante.


e) Essas obrigações, transformadas por esse processo de mágica financeira -- que diluía a quase totalidade dos papeis “sub-prime” no interior de obrigações “seguras” AAA e AA -- eram então repassadas a Bancos, Fundos de Pensões, Fundos Soberanos, e/ou revendidos a investidores privados, com enorme proveito para os corretores, gerentes e diretores, remunerados com milhões de dólares por via de suas parcelas dos lucros e/ou comissões.


f) Como se não bastasse o tamanho do risco sistêmico introduzido por essa enormidade de papéis passiveis de perderem grande parte de seu valor pela inadimplência das hipotécas, os inovadores do mercado financeiro empilharam em cima desses os CDS (Credit Securities Swaps).


g) CDS são contratos bilaterais que nasceram de um mecanismo em que uma parte (por exemplo Bear Sterns, ou AIG) recebia pagamentos de um investidor em troca da promessa de pagar uma certa quantia em caso de diminuição do valor do papel adquirido pelo investidor, uma espécie de seguro, uma cerca de garantia (“hedge”) contra possíveis perdas.


h) Ocorre que, tratando-se de papeis não regulamentados, surgiu um mercado de CDSs comprados, vendidos e revendidos a “investidores” dispostos a pagar um prêmio mensal por uma apólice dando direito a receber uma compensação no caso de diminuição do valor de papeis (os mesmos RBDS, CDOs anteriormente citados) que não necessitam ser possuidos pelo “segurado”, nem emitido pela entidade “seguradora”.


i) Disso resultou uma jogatina crescente de “investidores” que aplicaram trilhões de dólares em apólices compradas, vendidas e revendidas diretamente no balcão ou pelo telefone, que na verdade não passam de apostas sobre se tal ou qual papel vai ou não vai ter seu valor de face aumentado ou diminuído dentro do prazo de validade da apólice.


j) Como os prêmios são pagos como segurança contra inadimplência, se os eventos previsto nos CDSs se multiplicarem, a entidade vendedora da “proteção” não tem como saldar seus compromissos e entra em regime de falência.


É isso que ocorreu com Bear Sterns, Lehman Brothers e AIG, e é isso que vai jogar no chão todo o castelo de cartas erigido pelos supostos responsáveis pelo sistema financeiro mundial, que montaram uma "bomba de destruição em massa" cuja dimensão não pode ser quantificada com precisão, mas que não deve ser muito menor do que a apresentada no gráfico abaixo, usando dados do BIS - Bank of International Settlements (clicar para ampliar):



Essa é a principal razão pela qual os Bancos Centrais de todo o planeta estão literalmente apavorados, porque cada entidade falida que não responde pela promessa de seus CDSs, faz com que se evaporem as centenas de trilhões de dólares que foram multiplicados nas contas de outras instituições (inclusive fundos soberanos, possuidos por Bancos Centrais), que podiam apresentar esses papéis como “ativos” seguros porque estavam garantidos contra perdas.

As mais bem informadas fontes tem repetido com insistência que os trilhões de dólares de papel criados no mercado de “derivatives” (RMBS, CDO, CDS e outros) com certeza superam os valores somados do suprimento mundial de moeda corrente, do produto mundial bruto, e do próprio valor agregado de todos os títulos e ações existentes no planeta.

É uma típica situação em que o rabo passou a abanar o cachorro, RAZÃO PORQUE É BASTANTE SEGURO CONCLUIR que a implosão do conjunto dos “derivatives” é iminente, e implica na implosão do sistema financeiro mundial.