De modo geral as pessoas não estão sabendo avaliar a enormidade das conseqüências do vazamento de óleo no Golfo do México que, para começar, é muito maior que os 5.000 barris diários inicialmente anunciados.
A primeira seqüela é o reflexo negativo nos programas de busca de petróleo em águas profundas, que são necessários para minimizar o efeito da queda de produção, que se prevê acelerada a partir de 2012.
O que resulta numa segunda e fundamental seqüela, que é o agravamento da “tempestade perfeita” decorrente da conjuminação da crise energética com a convergência das crises financeiras européia e americana, deflagradas primeiramente em 2008 a nível de bancos privados – quando a demanda por petróleo encostou no teto de produção e o alto preço do produto descarrilhou a economia – e que vai agora galgando seu segundo patamar, a nível de Bancos Centrais e dos respectivos Estados, que não tem, acima deles, quem os possa resgatar adquirindo papeis sem valor, como eles próprios fizeram com os bancos privados.
O mais grave de tudo é que ao longo da pseudo-recuperação econômica de 2009 foram adicionadas varias dezenas de trilhões de dólares à ”bomba de destruição em massa” representada pelo mercado de papeis derivativos, que já ultrapassou os 600 trilhões de dólares, numa monumental pirâmide de papeis sem lastro que supera os valores somados do suprimento mundial de moeda corrente, do produto mundial bruto, e do próprio valor agregado de todos os títulos e ações existentes no planeta.
Essa é a razão principal porque o Banco Central Europeu se encontra beira do pânico, já que cada inadimplência Estatal fará com que se evaporem trilhões de euros/dólares de fundos soberanos e outros possuídos pelos Bancos Centrais e privados, contagiando todo o sistema financeiro mundial.
Como sempre ocorre em tempos de grandes crises, o caminho fica aberto a todas as alternativas políticas, por mais destrutivas ou inviáveis que sejam.
Tem havido comentários de que os comunistas estão se preparando para derrubar o governo eleito e retirar a Grécia da União Européia. Mas... “comunistas” de quais “meios de produção”, num país cuja economia está principalmente fundada no turismo, e não haverá nenhuma riqueza a distribuir, mas somente empobrecimento, quando os turistas pararem de aportar ?
O que nas últimas semanas está acontecendo na Europa é que as massas despertaram para a realidade da falência de todo o sistema, e o problema financeiro deslocou-se para a área política, o que não ocorreu ainda nos Estados Unidos.
De qualquer modo, tanto a Europa quanto os Estados Unidos já esgotaram seus paióis de munição econômica, não tem a menor condição de salvarem-se mutuamente, e vai se aproximando o momento em que eles próprios passarão a correr o risco de desmanche, como inesperadamente se deu na União Soviética.
O que nós, de condição periférica, precisamos determinar, é o caminho a tomar nessa espiral descendente de insolvência e tribulação.
As organizações e os países islâmicos radicais vão fazer o possível para piorar as coisas, e podem conseguir muito nessa direção, dificultando as exportações de petróleo e estimulando as populações imigrantes à violência política.
Com exceção da Índia – desprovida de recursos energéticos – os paises continentais integrantes do BRIC parecem ter boas possibilidade de sobrenadar no colapso, com grau de sucesso dependente de sua capacidade de criar economias complementares adequadas a um quadro de grande escassez de recursos.
Com relação ao nosso País, não há muito que acrescentar ao recomendado há cerca de cinco anos na primeira edição de “O Crepúsculo do Petróleo”, na previsão dessa situação:
Para o Brasil possivelmente não existirá outra saída senão descolar-se completamente da área do dólar e tornar-se virtualmente autárquico, mantendo a economia doméstica em funcionamento através de programas internos de investimento na indústria pesada e na agricultura; financiados por moeda própria, títulos e papéis negociáveis em nossas próprias Bolsas de Valores; bancados pelo vigor de uma economia capitalizada por nossas fontes de energia renovável; apoiados por nossa ampla força de trabalho; por um suficiente mercado interno; e pelo estreitamento dos vínculos com a China, com a Índia e com a Rússia, para o aproveitamento das evidentes oportunidades de intercâmbio nas áreas energética, de alimentos e de tecnologia avançada.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Desculpem, mas o cenário é pior ainda !!
Começa a penetrar na consciência de mais e mais pessoas que o detonador da crise econômica foi o crescimento exponencial do preço do petróleo até o pico de US$ 147 ocorrido em julho de 2008, e de que esse condicionante devastador tende a se apresentar de volta com plena força -- o que já começa a ocorrer com os preços atingindo de novo o patamar dos US$ 70.
A projeção de um declínio líquido de produção no entorno dos 3% ao mês, mostrado nos gráficos postados em 24 de junho, foi feito com base na experiência das dezenas de províncias petrolíferas que atingiram o pico e entraram em declínio irreversível, como os próprios Estados Unidos (que fez pico em 1970), o Mar do Norte (que atingiu o pico em 2000), e a Rússia (em 2007) -- dentre as mais importantes.
Nesses gráficos é pressuposto um cenário em que a produção depois de atingir o pico vai decaindo suavemente por várias décadas, de modo que lá por 2050, ou coisa semelhante, o mundo será forçado a viver com menos da metade do óleo que é atualmente consumido.
É fundamental que se perceba que mesmo a expectativa desse declínio suave é suficiente para determinar uma situação caótica de empobrecimento e confrontação entre paises e blocos de países, crescentemente asfixiados por uma crise econômica de solução impossível devido à escassez de energia -- a única fonte de capital concretamente lastrado em produção material.
Mas quando os especialistas extrapolam o declínio de produção baseando seus cálculos no que ocorreu nas províncias produtoras que ultrapassaram o pico, deixam de considerar o fato fundamental de que essa queda de produção, sendo apenas local, teve mínima repercussão econômica porque o déficit energético sempre pôde ser compensado pela importação do petróleo, como ocorreu nos Estados Unidos a partir de 1970.
Desse modo, as taxas médias de declínio líquido da ordem de 2%, 3% ao ano, refletem uma situação em que as empresas produtoras de petróleo tiveram todas as facilidades para investir e introduzir as inovações tecnológicas necessárias a maximizar a produção -- em total oposição ao que ocorre numa situação de crise global e de competição por recursos escassos realimentada, em circulo vicioso, pelo próprio declínio da produção mundial.
A retro-alimentação da crescente crise energética determina por si mesma incontornáveis obstáculos à arregimentação dos recursos materiais e humanos que seriam necessários para sustar ou minimizar o declínio, o que já está ocorrendo com a desistência ou adiamento de inúmeros mega-projetos de expansão que deveriam entrar em operação na faixa 2008/2012.
A medida em que as perdas começam a se acumular, ano após ano, a escala do déficit energético é estarrecedora: cada milhão de barris produzido a menos por dia (365 milhões de barris por ano) teria que ser substituído por 58 usinas nucleares do padrão de Angra I.
O declínio anual liquido de 3% sobre a presente produção de 83,5 milhões de barris diários corresponde a 912 milhões de barris a menos por ano, que teriam que ser substituídos por 145 usinas nucleares; e mais 145 usinas para compensar a perda do ano seguinte; e mais 145 para compensar a perda do seguinte; e mais 145...
Note-se que estamos tratando de um problema que vai começar a ficar indisfarçável já em 2012, quando a demanda dificilmente será atendida mesmo estabilizada pela crise no atual patamar dos 80/90 milhões de barris (73/75 milhões de petróleo crú + 10/12 milhões de combustiveis liquidos diversos, inclusive etanol).
E 2012 é praticamente amanhã. 2015, depois de amanhã.
Pode ocorrer que entre 2012 e 2015 a capacidade mundial de produção seja menor que 70 milhões de barris por dia, cerca de 13 milhões de barris a menos do que os produzidos hoje -- que teriam que ser substituídos por 754 novas usinas nucleares, ou por cana plantada em 1.900.000 km2 (24% do território brasileiro).
E para compensar o déficit do ano seguinte, mais 265.000 km2 de cana, ou 145 usinas nucleares...
Dever estar ficando óbvio que por esse caminho não há solução.
O slide que já foi reproduzido numa das postagens mais antigas resume muito bem a situação:

Apesar de todas as vantagens que se oferecem ao Brasil, vão ser bem duros os anos que vem por aí. Tenho a esperança de não estar sendo inconveniente alertando a todos quanto à necessidade de fechar bem as escotilhas do nosso barco-família, e escolher a rota com cuidado para enfrentar essa tormenta, tanto a nível pessoal quanto nacional.
A projeção de um declínio líquido de produção no entorno dos 3% ao mês, mostrado nos gráficos postados em 24 de junho, foi feito com base na experiência das dezenas de províncias petrolíferas que atingiram o pico e entraram em declínio irreversível, como os próprios Estados Unidos (que fez pico em 1970), o Mar do Norte (que atingiu o pico em 2000), e a Rússia (em 2007) -- dentre as mais importantes.
Nesses gráficos é pressuposto um cenário em que a produção depois de atingir o pico vai decaindo suavemente por várias décadas, de modo que lá por 2050, ou coisa semelhante, o mundo será forçado a viver com menos da metade do óleo que é atualmente consumido.
É fundamental que se perceba que mesmo a expectativa desse declínio suave é suficiente para determinar uma situação caótica de empobrecimento e confrontação entre paises e blocos de países, crescentemente asfixiados por uma crise econômica de solução impossível devido à escassez de energia -- a única fonte de capital concretamente lastrado em produção material.
Mas quando os especialistas extrapolam o declínio de produção baseando seus cálculos no que ocorreu nas províncias produtoras que ultrapassaram o pico, deixam de considerar o fato fundamental de que essa queda de produção, sendo apenas local, teve mínima repercussão econômica porque o déficit energético sempre pôde ser compensado pela importação do petróleo, como ocorreu nos Estados Unidos a partir de 1970.
Desse modo, as taxas médias de declínio líquido da ordem de 2%, 3% ao ano, refletem uma situação em que as empresas produtoras de petróleo tiveram todas as facilidades para investir e introduzir as inovações tecnológicas necessárias a maximizar a produção -- em total oposição ao que ocorre numa situação de crise global e de competição por recursos escassos realimentada, em circulo vicioso, pelo próprio declínio da produção mundial.
A retro-alimentação da crescente crise energética determina por si mesma incontornáveis obstáculos à arregimentação dos recursos materiais e humanos que seriam necessários para sustar ou minimizar o declínio, o que já está ocorrendo com a desistência ou adiamento de inúmeros mega-projetos de expansão que deveriam entrar em operação na faixa 2008/2012.
A medida em que as perdas começam a se acumular, ano após ano, a escala do déficit energético é estarrecedora: cada milhão de barris produzido a menos por dia (365 milhões de barris por ano) teria que ser substituído por 58 usinas nucleares do padrão de Angra I.
O declínio anual liquido de 3% sobre a presente produção de 83,5 milhões de barris diários corresponde a 912 milhões de barris a menos por ano, que teriam que ser substituídos por 145 usinas nucleares; e mais 145 usinas para compensar a perda do ano seguinte; e mais 145 para compensar a perda do seguinte; e mais 145...
Note-se que estamos tratando de um problema que vai começar a ficar indisfarçável já em 2012, quando a demanda dificilmente será atendida mesmo estabilizada pela crise no atual patamar dos 80/90 milhões de barris (73/75 milhões de petróleo crú + 10/12 milhões de combustiveis liquidos diversos, inclusive etanol).
E 2012 é praticamente amanhã. 2015, depois de amanhã.
Pode ocorrer que entre 2012 e 2015 a capacidade mundial de produção seja menor que 70 milhões de barris por dia, cerca de 13 milhões de barris a menos do que os produzidos hoje -- que teriam que ser substituídos por 754 novas usinas nucleares, ou por cana plantada em 1.900.000 km2 (24% do território brasileiro).
E para compensar o déficit do ano seguinte, mais 265.000 km2 de cana, ou 145 usinas nucleares...
Dever estar ficando óbvio que por esse caminho não há solução.
O slide que já foi reproduzido numa das postagens mais antigas resume muito bem a situação:

Apesar de todas as vantagens que se oferecem ao Brasil, vão ser bem duros os anos que vem por aí. Tenho a esperança de não estar sendo inconveniente alertando a todos quanto à necessidade de fechar bem as escotilhas do nosso barco-família, e escolher a rota com cuidado para enfrentar essa tormenta, tanto a nível pessoal quanto nacional.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
A Tempestade Perfeita
Os economistas da moda, e os interesses que os alimentam, continuam a ignorar que o detonador da Depressão Econômica que se espalha pelo mundo foi o atingimento do atual patamar-limite da capacidade mundial de produção da energia barata do petróleo convencional, alcançado no período 2004/2009, no entorno dos 72/73 milhões de barris diários de petróleo crú.
Por esse motivo continuam a considerar que a crise é conseqüente da concessão irresponsável de empréstimos nos EUA - e que os pacotes de estímulo e medidas de salvação sem precedentes já mostram seus efeitos na elevação dos índices da Bolsa, ocorrido no último trimestre.
Na verdade pode-se verificar facilmente que depois de cair para menos que 46% do valor que tinha em 2007, o índice Dow Jones, à custa de muita propaganda enganosa e de investimentos bilionários, teve uma cambaleante “recuperação” para níveis próximos de 61% do valor inicial, que já volta a instabilizar-se porque a crise evoluiu tão rapidamente que tornou obvio que a tentativa de resolver o problema pela injeção de dinheiro sem lastro na economia só piora uma situação que é de “ruptura sistêmica” – uma descrição que já entrou na linguagem do próprio establishment dominante.
Desse modo, devido à ausência do enfrentamento da origem do problema, devemos nos preparar para a superposição da crise energética com a convergência de três vendavais particularmente destruidores, a “tempestade perfeita” que vai desabar sobre o mundo na segunda decada deste século:
1º) a sucessão de falências de bancos, empresas, países, regiões;
2º) o desemprego maciço;
3º) e, finalmente, a crise terminal dos Títulos do Governo Americano e do Reino Unido, projetando a quebra do Dólar e da Libra Esterlina, com a cessação de pagamentos dos Estados Unidos e do Reino Unido, que estão no cerne do sistema financeiro.
O que do ponto de vista energético torna essa situação cada dia mais clara é o fato de que em 2009, pela primeira vez, a EIA (Energy Information Administration - Americana) e a IEA – International Energy Agency demonstraram em seus relatórios estar se juntando aos geólogos de petróleo e outros conceituados especialistas do ramo que vem há alguns anos alertando que a produção mundial de petróleo barato, convencional, já atingiu o nível máximo sustentável e que tende a entrar em declínio, causando o caos econômico global.
A isso se soma o alerta do próprio relatório 2009 da IEA de que, com crise ou sem crise, a demanda dos países asiáticos por energia em 2030 tende igualar-se ao consumo dos principais países do “primeiro mundo”.
A edição de 2006 previa que a China ultrapassaria o consumo americano em 2026/2030; na edição de 2007 era 2021/2024; em 2008 o numero foi 2016/2020; no corrente ano a EIA está prevendo que a China já ultrapassará o consumo americano entre 2010 e 2014!
A conseqüência inelutável disso reflete-se no aviso dado pela Arábia Saudita de que dentro dos próximos 2 ou 3 anos os preços do petróleo estarão em nivel igual ou maior do que o pico alcançado em 2008.
As curvas abaixo foram feitas a partir dos dados obtidos dos relatórios da EIA, da IEA, e da OPEP datados de junho/2009.
A linha vermelha mostra a produção total de "líquidos", que inclue, além do petróleo crú, os liquidos condensados do gás, o NGL, os biocombustíveis, os "ganhos de refinaria" e os combustíveis sintéticos. A linha negra mostra a estimativa de demanda. Em MBD milhões de barris por dia, indicados no eixo da esquerda.
A linha verde pontilhada mostra a media ponderada dos preços em US$ por barril, extrapolada a partir de 2009.
Clique na Imagem para ampliar

Uma situação totalmente adversa para a recuperação da economia mundial, dentro da qual um dos poucos vencedores poderá ser o Brasil que, além dos bio-combustíveis, terá o benefício da produção dos grandes campos ultra-profundos da camada pré-sal.
Na verdade pode-se verificar facilmente que depois de cair para menos que 46% do valor que tinha em 2007, o índice Dow Jones, à custa de muita propaganda enganosa e de investimentos bilionários, teve uma cambaleante “recuperação” para níveis próximos de 61% do valor inicial, que já volta a instabilizar-se porque a crise evoluiu tão rapidamente que tornou obvio que a tentativa de resolver o problema pela injeção de dinheiro sem lastro na economia só piora uma situação que é de “ruptura sistêmica” – uma descrição que já entrou na linguagem do próprio establishment dominante.
Desse modo, devido à ausência do enfrentamento da origem do problema, devemos nos preparar para a superposição da crise energética com a convergência de três vendavais particularmente destruidores, a “tempestade perfeita” que vai desabar sobre o mundo na segunda decada deste século:
1º) a sucessão de falências de bancos, empresas, países, regiões;
2º) o desemprego maciço;
3º) e, finalmente, a crise terminal dos Títulos do Governo Americano e do Reino Unido, projetando a quebra do Dólar e da Libra Esterlina, com a cessação de pagamentos dos Estados Unidos e do Reino Unido, que estão no cerne do sistema financeiro.
O que do ponto de vista energético torna essa situação cada dia mais clara é o fato de que em 2009, pela primeira vez, a EIA (Energy Information Administration - Americana) e a IEA – International Energy Agency demonstraram em seus relatórios estar se juntando aos geólogos de petróleo e outros conceituados especialistas do ramo que vem há alguns anos alertando que a produção mundial de petróleo barato, convencional, já atingiu o nível máximo sustentável e que tende a entrar em declínio, causando o caos econômico global.
A isso se soma o alerta do próprio relatório 2009 da IEA de que, com crise ou sem crise, a demanda dos países asiáticos por energia em 2030 tende igualar-se ao consumo dos principais países do “primeiro mundo”.
A edição de 2006 previa que a China ultrapassaria o consumo americano em 2026/2030; na edição de 2007 era 2021/2024; em 2008 o numero foi 2016/2020; no corrente ano a EIA está prevendo que a China já ultrapassará o consumo americano entre 2010 e 2014!
A conseqüência inelutável disso reflete-se no aviso dado pela Arábia Saudita de que dentro dos próximos 2 ou 3 anos os preços do petróleo estarão em nivel igual ou maior do que o pico alcançado em 2008.
As curvas abaixo foram feitas a partir dos dados obtidos dos relatórios da EIA, da IEA, e da OPEP datados de junho/2009.
A linha vermelha mostra a produção total de "líquidos", que inclue, além do petróleo crú, os liquidos condensados do gás, o NGL, os biocombustíveis, os "ganhos de refinaria" e os combustíveis sintéticos. A linha negra mostra a estimativa de demanda. Em MBD milhões de barris por dia, indicados no eixo da esquerda.
A linha verde pontilhada mostra a media ponderada dos preços em US$ por barril, extrapolada a partir de 2009.
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Uma situação totalmente adversa para a recuperação da economia mundial, dentro da qual um dos poucos vencedores poderá ser o Brasil que, além dos bio-combustíveis, terá o benefício da produção dos grandes campos ultra-profundos da camada pré-sal.
segunda-feira, 30 de março de 2009
O G-20 e a inadministrabilidade da Crise
Basta inspecionar o último relatório sobre a situação dos “papeis derivativos”, emitido pelo escritório de controle da moeda dos Estados Unidos (Quarterly Report on Bank Trading and Derivatives Activity), para que fique bem clara, aos olhos de quem quer ver, que o tamanho da crise está muito acima do que seria possível controlar, e que as supostas soluções que vem sendo propostas a nivel de governos, e reuniões internacionais, como a do G-20, em abril, não passam de tentativas de esconder um desastre de proporções inacreditáveis.
Nesse relatório pode-se verificar que o conjunto dos 5 maiores bancos é detentor hoje de 96% das posições dos derivativos dos bancos americanos, os quais são, em ordem de comprometimento decrescente:
JPMorgan Chase, que detém espantosos 88 trilhões (88 mil bilhões !!) de dólares, em derivativos; seguido pelo Bank of America com 38 trilhões em derivativos; pelo Citibank com 32 trilhões; e pelo Goldman Sachs, com 30 trilhões.
Em quinto lugar vem o resultado da fusão Wells Fargo-Wachovia Bank, com “meros” 5 trilhões em derivativos. O sexto da lista seria o ramo americano do HSBC, com 3,7 trilhões.
Os tão falados 180 bilhões utilizados para evitar a falência da AIG foram principalmente empregados para pagar o seguro de derivatives de Goldman Sachs, Citibank, JP Morgan Chase, Bank of América e outros, que se revelaram sem valor.
Não dá para entender como os “especialistas” que estão tratando do assunto querem que acreditemos que despejar mais algumas centenas de bilhões de dólares possa mudar a situação de um universo de centenas de trilhões, em que garantias de papel representam ativos inexistentes, numa escala 10 (dez) vezes superior ao total anual da produção mundial.
Vai ficando cada vez mais claro aos olhos do mundo que despejar moeda-papel nesse saco sem fundo é o mesmo que fornecer a um alcoólico acesso ilimitado ao barril de cachaça, e ao falsário a chave da impressora -- o que interessa principalmente a esses bancos, e ao governo americano.
Na China, na Rússia e na Europa, isso já foi entendido.
Mas o Brasil vai ao G-20 à reboque dos americanos, e com Lula apaixonado pela ginga do Obama.
O que, diga-se de passagem, não vai fazer a menor diferença, porque a única coisa que se pode esperar de uma reunião desse tipo, é a exacerbação das divergências.
Nesse relatório pode-se verificar que o conjunto dos 5 maiores bancos é detentor hoje de 96% das posições dos derivativos dos bancos americanos, os quais são, em ordem de comprometimento decrescente:
JPMorgan Chase, que detém espantosos 88 trilhões (88 mil bilhões !!) de dólares, em derivativos; seguido pelo Bank of America com 38 trilhões em derivativos; pelo Citibank com 32 trilhões; e pelo Goldman Sachs, com 30 trilhões.
Em quinto lugar vem o resultado da fusão Wells Fargo-Wachovia Bank, com “meros” 5 trilhões em derivativos. O sexto da lista seria o ramo americano do HSBC, com 3,7 trilhões.
Os tão falados 180 bilhões utilizados para evitar a falência da AIG foram principalmente empregados para pagar o seguro de derivatives de Goldman Sachs, Citibank, JP Morgan Chase, Bank of América e outros, que se revelaram sem valor.
Não dá para entender como os “especialistas” que estão tratando do assunto querem que acreditemos que despejar mais algumas centenas de bilhões de dólares possa mudar a situação de um universo de centenas de trilhões, em que garantias de papel representam ativos inexistentes, numa escala 10 (dez) vezes superior ao total anual da produção mundial.
Vai ficando cada vez mais claro aos olhos do mundo que despejar moeda-papel nesse saco sem fundo é o mesmo que fornecer a um alcoólico acesso ilimitado ao barril de cachaça, e ao falsário a chave da impressora -- o que interessa principalmente a esses bancos, e ao governo americano.
Na China, na Rússia e na Europa, isso já foi entendido.
Mas o Brasil vai ao G-20 à reboque dos americanos, e com Lula apaixonado pela ginga do Obama.
O que, diga-se de passagem, não vai fazer a menor diferença, porque a única coisa que se pode esperar de uma reunião desse tipo, é a exacerbação das divergências.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
A verdadeira causa da crise financeira
A raiz da questão:A presente crise está sendo apresentada como um problema técnico causado pelo excesso de facilidades na contratação de hipotecas, e empréstimos feitos sem adequadas garantias, que pode ser tecnicamente resolvido pela aplicação de providências adequadas, como baixar ou elevar taxas de juros, ou injetar recursos públicos para a salvação de bancos insolventes.
Na verdade a situação é extremamente mais grave do que isso, porque tudo indica que a semi-esquecida crise energética detonou um processo sem volta de desmoronamento do sistema financeiro mundial, baseado na criação moeda lastreada exclusivamente em papel, e num mecanismo de endividamento crescente, que pressupõe a ilimitada expansão da economia.
O mecanismo de criação da moeda
Antes de mais nada é fundamental entender porque o sistema de criação dos meios de pagamento pelos Bancos Centrais funciona como uma “corrente de cartas” ou “pirâmide financeira”, indistinguível das perseguidas pela polícia quando montadas por vigaristas ambiciosos.
O procedimento é bem semelhante, em todos paises que operam com Bancos Centrais. Digamos que, no Brasil, se pretenda expandir a base monetária em 10 bilhões de reais:
1) Com esse objetivo, o Tesouro Nacional imprime (ou promete imprimir) uma certa quantidade de papéis lindamente impressos, no valor nominal de 10 bilhões de reais, e os entrega ao Banco Central, que em troca deposita nas contas do Governo, no Sistema de Bancário Nacional, 10 bilhões de reais, que passam a integrar os meios de pagamento. Esse depósito pode ser feito em Notas de moeda corrente, também lindamente impressas, ou ser simplesmente realizado por via eletrônica.
2) Nesse ato o Governo passa a ser devedor não só do total depositado, mas também dos juros correspondentes às Letras do Tesouro adquiridas pelo Banco Central.
3) A legislação em vigor determina que os bancos que fazem parte do Sistema Bancário estão autorizados a emprestar ao público uma elevada fração, normalmente 90%, dos depósitos neles feitos. Sendo assim, eles podem, logo de inicio, emprestar -- e efetivamente o fazem, pois seus lucros provém disso – 9 bilhões de reais.
4) Desse momento em diante ocorre uma coisa inacreditável, que se assemelha ao “milagre da multiplicação dos pães e peixes”: os 9 bilhões de reais se transformam, em operações sucessivas, em 90 bilhões de reais emprestados ao publico usando “moeda escritural” -- que é um nome impressionante aplicado a um dinheiro que os bancos emprestam sem ter, simplesmente criado “do ar”.
5) A mecânica disso é ridiculamente simples:
a) Quando os bancos emprestam os primeiros 9 bilhões a seus clientes, eles fazem isso simplesmente dando entrada num crédito escritural na conta de cada um deles, totalizando 9 bilhões de reais.
b) Se esses recursos são movimentados ou não, pouco importa, os saques feitos em cheque ou moeda voltam sempre como depósitos, ao mesmo banco, ou em outro, do Sistema Bancário. Os 9 bilhões emprestados constituem assim, para todos fins legais, depósitos distintos que dão aos bancos direito de emprestar 90% desse valor – ou seja, mais 8,1 bilhões.
c) Esses novos empréstimos ao serem creditados (“depositados”) nas contas dos clientes geram o direito de emprestar mais 90% de 8,1 = 7,29, e assim por diante, um número infinito de vezes.
d) O total emprestado, portanto é
9 + 0,9 x 9 + (0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + .....
Os que fizeram o ginásio no tempo em que se aprendia alguma coisa já perceberam que trata-se da soma dos termos de uma progressão geométrica decrescente, infinita, cujo termo inicial a1= 9 e a razão q = 0,9.
A fórmula que fornece o resultado é
S = a1 / (1- q) = 9 / (1-0,9) = 9 / 0,1 = 90;
90 bilhões !!
6) Em suma, cada 1.000 reais em moeda criada pelo Banco Central gera 10.000 reais de dívidas sendo 9.000 em dinheiro criado “do ar” pelos bancos, para os bancos, sem contar as taxas e juros.
A respeito desse fato me vem á lembrança as palavras de um conhecido meu, que depois de ganhar muito dinheiro como incorporador e virar financista e banqueiro, comentou certa vez:
“É incrível como é fácil criar dinheiro. Basta anotar um crédito na conta de alguém que ele sai assinando cheques. E o melhor é que ele me paga de volta esse dinheiro que não dei. Se eu tivesse sabido disso antes, não teria perdido tanto tempo tentando ganhar dinheiro de outro modo”.
Porque o sistema está fadado a implodirO que determina a instabilidade fundamental do Sistema não é o dinheiro fácil ganho pelos banqueiros, é o fato de que os 90 bilhões de reais de dinheiro novo criado por eles tem efeito inflacionário, adquirindo valor pela via da desvalorização do conjunto da base monetária.
Além disso, toda essa bolada de dinheiro – isto é, os 10 bilhões iniciais criados pelo Banco Central e os 90 bilhões criados pelos bancos, tem que ser pagos com o acréscimo de juros, digamos 12%, ou 12 bilhões de reais, isto é, a quantidade de dinheiro que é devida aos bancos será sempre maior que a quantidade de dinheiro (moeda corrente + depósitos bancários) existente em circulação.
Isto quer simplesmente dizer que um Sistema Financeiro operando dessa forma baseia-se na obrigação de pagar juros com um dinheiro que não existe -- nem existirá, caso não se providencie a expansão da base. O que gera a necessidade da expansão permanente da economia para torna-la capaz de contrabalançar o volume de dinheiro ciclicamente criado -- condição sine qua non da preservação do Sistema.
Em suma, do mesmo modo que na “pirâmide financeira” ou na “corrente de cartas”, que fica cada vez mais difícil de ser mantida porque exige um volume cada vez maior de dinheiro, um Sistema Financeiro baseado na dívida fatalmente entra em processo de quebra, desabamento, derretimento (palavras que começam a ser ouvidas, ultimamente) quando atinge o ponto em que se torna impossível conseguir participantes capazes de manter a roda girando com a velocidade suficiente.
Desde 2001 a economia americana começou a emperrar, exigindo juros mais baixos e facilidades cada vez maiores para encontrar tomadores de empréstimo nas proporções necessárias.
A partir de 2005, o começo de recessão causada pelos altos custos de energia, fez com que as pessoas tivessem menos dinheiro para consumir ou pagar dividas.
Para que um sistema financeiro funcione é fundamental que os tomadores de empréstimos paguem suas dívidas. O aumento da inadimplência desaqueceu a maior economia do planeta e contaminou os parceiros globais que haviam investido trilhões de dólares no mercado de papéis derivativos, garantidos por duvidosas hipotecas e outros títulos afins
Instalou-se assim a crise sistêmica global:
1) os bancos estão insolventes porque seus empréstimos estão garantidos por ativos sem valor; 2) a recessão econômica interrompeu o crescimento ininterrupto que viabiliza o sistema baseado na dívida; 3) não há como estimular a economia inundando os bancos com dinheiro que o público hesita em tomar, e que os bancos receiam emprestar, porque não confiam nos tomadores.
Para todos os efeitos o sistema quebrou. A única coisa que está mantendo a estrutura colada é a enorme fé no poder do Estado, e a visão desenvolvimentista de que déficits não tem muita importância, associada aos economistas da chamada “Escola de Chicago”.
Outros cansaram de pregar no deserto a verdadeira verdade que um sistema como esse, baseado no aumento da dívida pública e privada, levará fatalmente à insolvência dos devedores, ao desaparecimento da base financeira, e à desintegração do Sistema Financeiro Internacional.
Resta aguardar o desfecho, para ver quem tem razão.
Na verdade a situação é extremamente mais grave do que isso, porque tudo indica que a semi-esquecida crise energética detonou um processo sem volta de desmoronamento do sistema financeiro mundial, baseado na criação moeda lastreada exclusivamente em papel, e num mecanismo de endividamento crescente, que pressupõe a ilimitada expansão da economia.
O mecanismo de criação da moeda
Antes de mais nada é fundamental entender porque o sistema de criação dos meios de pagamento pelos Bancos Centrais funciona como uma “corrente de cartas” ou “pirâmide financeira”, indistinguível das perseguidas pela polícia quando montadas por vigaristas ambiciosos.
O procedimento é bem semelhante, em todos paises que operam com Bancos Centrais. Digamos que, no Brasil, se pretenda expandir a base monetária em 10 bilhões de reais:
1) Com esse objetivo, o Tesouro Nacional imprime (ou promete imprimir) uma certa quantidade de papéis lindamente impressos, no valor nominal de 10 bilhões de reais, e os entrega ao Banco Central, que em troca deposita nas contas do Governo, no Sistema de Bancário Nacional, 10 bilhões de reais, que passam a integrar os meios de pagamento. Esse depósito pode ser feito em Notas de moeda corrente, também lindamente impressas, ou ser simplesmente realizado por via eletrônica.
2) Nesse ato o Governo passa a ser devedor não só do total depositado, mas também dos juros correspondentes às Letras do Tesouro adquiridas pelo Banco Central.
3) A legislação em vigor determina que os bancos que fazem parte do Sistema Bancário estão autorizados a emprestar ao público uma elevada fração, normalmente 90%, dos depósitos neles feitos. Sendo assim, eles podem, logo de inicio, emprestar -- e efetivamente o fazem, pois seus lucros provém disso – 9 bilhões de reais.
4) Desse momento em diante ocorre uma coisa inacreditável, que se assemelha ao “milagre da multiplicação dos pães e peixes”: os 9 bilhões de reais se transformam, em operações sucessivas, em 90 bilhões de reais emprestados ao publico usando “moeda escritural” -- que é um nome impressionante aplicado a um dinheiro que os bancos emprestam sem ter, simplesmente criado “do ar”.
5) A mecânica disso é ridiculamente simples:
a) Quando os bancos emprestam os primeiros 9 bilhões a seus clientes, eles fazem isso simplesmente dando entrada num crédito escritural na conta de cada um deles, totalizando 9 bilhões de reais.
b) Se esses recursos são movimentados ou não, pouco importa, os saques feitos em cheque ou moeda voltam sempre como depósitos, ao mesmo banco, ou em outro, do Sistema Bancário. Os 9 bilhões emprestados constituem assim, para todos fins legais, depósitos distintos que dão aos bancos direito de emprestar 90% desse valor – ou seja, mais 8,1 bilhões.
c) Esses novos empréstimos ao serem creditados (“depositados”) nas contas dos clientes geram o direito de emprestar mais 90% de 8,1 = 7,29, e assim por diante, um número infinito de vezes.
d) O total emprestado, portanto é
9 + 0,9 x 9 + (0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + (0,9 x 0,9 x 0,9 x 0,9) x 9 + .....
Os que fizeram o ginásio no tempo em que se aprendia alguma coisa já perceberam que trata-se da soma dos termos de uma progressão geométrica decrescente, infinita, cujo termo inicial a1= 9 e a razão q = 0,9.
A fórmula que fornece o resultado é
S = a1 / (1- q) = 9 / (1-0,9) = 9 / 0,1 = 90;
90 bilhões !!
6) Em suma, cada 1.000 reais em moeda criada pelo Banco Central gera 10.000 reais de dívidas sendo 9.000 em dinheiro criado “do ar” pelos bancos, para os bancos, sem contar as taxas e juros.
A respeito desse fato me vem á lembrança as palavras de um conhecido meu, que depois de ganhar muito dinheiro como incorporador e virar financista e banqueiro, comentou certa vez:
“É incrível como é fácil criar dinheiro. Basta anotar um crédito na conta de alguém que ele sai assinando cheques. E o melhor é que ele me paga de volta esse dinheiro que não dei. Se eu tivesse sabido disso antes, não teria perdido tanto tempo tentando ganhar dinheiro de outro modo”.
Porque o sistema está fadado a implodirO que determina a instabilidade fundamental do Sistema não é o dinheiro fácil ganho pelos banqueiros, é o fato de que os 90 bilhões de reais de dinheiro novo criado por eles tem efeito inflacionário, adquirindo valor pela via da desvalorização do conjunto da base monetária.
Além disso, toda essa bolada de dinheiro – isto é, os 10 bilhões iniciais criados pelo Banco Central e os 90 bilhões criados pelos bancos, tem que ser pagos com o acréscimo de juros, digamos 12%, ou 12 bilhões de reais, isto é, a quantidade de dinheiro que é devida aos bancos será sempre maior que a quantidade de dinheiro (moeda corrente + depósitos bancários) existente em circulação.
Isto quer simplesmente dizer que um Sistema Financeiro operando dessa forma baseia-se na obrigação de pagar juros com um dinheiro que não existe -- nem existirá, caso não se providencie a expansão da base. O que gera a necessidade da expansão permanente da economia para torna-la capaz de contrabalançar o volume de dinheiro ciclicamente criado -- condição sine qua non da preservação do Sistema.
Em suma, do mesmo modo que na “pirâmide financeira” ou na “corrente de cartas”, que fica cada vez mais difícil de ser mantida porque exige um volume cada vez maior de dinheiro, um Sistema Financeiro baseado na dívida fatalmente entra em processo de quebra, desabamento, derretimento (palavras que começam a ser ouvidas, ultimamente) quando atinge o ponto em que se torna impossível conseguir participantes capazes de manter a roda girando com a velocidade suficiente.
Desde 2001 a economia americana começou a emperrar, exigindo juros mais baixos e facilidades cada vez maiores para encontrar tomadores de empréstimo nas proporções necessárias.
A partir de 2005, o começo de recessão causada pelos altos custos de energia, fez com que as pessoas tivessem menos dinheiro para consumir ou pagar dividas.
Para que um sistema financeiro funcione é fundamental que os tomadores de empréstimos paguem suas dívidas. O aumento da inadimplência desaqueceu a maior economia do planeta e contaminou os parceiros globais que haviam investido trilhões de dólares no mercado de papéis derivativos, garantidos por duvidosas hipotecas e outros títulos afins
Instalou-se assim a crise sistêmica global:
1) os bancos estão insolventes porque seus empréstimos estão garantidos por ativos sem valor; 2) a recessão econômica interrompeu o crescimento ininterrupto que viabiliza o sistema baseado na dívida; 3) não há como estimular a economia inundando os bancos com dinheiro que o público hesita em tomar, e que os bancos receiam emprestar, porque não confiam nos tomadores.
Para todos os efeitos o sistema quebrou. A única coisa que está mantendo a estrutura colada é a enorme fé no poder do Estado, e a visão desenvolvimentista de que déficits não tem muita importância, associada aos economistas da chamada “Escola de Chicago”.
Outros cansaram de pregar no deserto a verdadeira verdade que um sistema como esse, baseado no aumento da dívida pública e privada, levará fatalmente à insolvência dos devedores, ao desaparecimento da base financeira, e à desintegração do Sistema Financeiro Internacional.
Resta aguardar o desfecho, para ver quem tem razão.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
“A normalidade da incompetência”
Na década de ’70 tive a oportunidade de ler um livro muito interessante, “O Princípio de Peter, ou As Leis da Incompetência” (The Peter Principle – de Lawrence Johnston Peter, 1969) que recomendo a todos porque, além de alertar sobre cuidados adicionais que devemos ter ao promover pessoas, em nossas próprias organizações, esclarece os motivos porque devemos sempre desconfiar da competência dos indivíduos que estão no topo da pirâmide, até de nós mesmos, quando nos situamos no cume.
O Principio de Peter afirma que em instituições estruturadas em posições de crescente responsabilidade, preenchidas pelo critério de competência, as vagas são ocupadas por indivíduos que demonstraram competência nos níveis inferiores e que vão sendo promovidos até atingirem seu nível de incompetência.
Fica assim perfeitamente explicada a completa desorientação que vem sendo demonstrada por Henry Paulson, Secretário do Tesouro Americano, altamente experiente no mundo dos Bancos de Investimento e na compra e venda de papeis de todo o tipo, mas que tem demonstrado um alto grau de incompetência nas desastradas tentativas de administrar uma crise pela qual, como presidente da Goldman and Sachs, foi um dos mais criativos e influentes responsáveis.
Em Setembro de 2008 ele começou resolvendo salvar Bear Stearns mas em seguida mudou de estratégia, permitindo o colapso de Lehman and Brothers, o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, que ao ter seus ativos liquidados na praça causou um efeito em cascata que desvalorizou os ativos de outros gigantes periclitantes como AIG - American International Group e o Citigroup.
Em ato continuo o Paulson conseguiu do Congresso permissão para usar 700 bilhões de dólares para salvar a situação comprando os “ativos podres” dos bancos.
Mas, se o governo pagar o preço correto por esses papeis praticamente sem valor, os bancos serão obrigados a reconhecer pesadíssimas perdas, tornando pública sua situação de insolvência.
Se, de outro modo, o preço pago por esse “refugo” for suficientemente alto para salvar os bancos, os 700 bilhões bastariam só para uma pequena fração dos ativos duvidosos.
Quando isso ficou claro, Paulson desistiu da compra de “ativos podres” anunciando que em vez disso usaria os recursos do governo para adquirir ações dos maiores bancos, fornecendo assim o capital destinado a estimular a concessão de empréstimos.
Verificou-se em seguida que a maioria, se não a totalidade, das instituições, está insolvente, a começar pelas maiores, como o Citigroup, virtualmente “nacionalizado” nesta ultima semana de Novembro -- embora por razões ideológicas todos evitem admitir que está ocorrendo um crescente processo de nacionalização das instituições financeiras.
O caso do Citibank é emblemático de uma situação de impossível solução.
No curso das urgentíssimas decisões de Setembro, levando em conta que em seus balanços o Citigroup apresentava ativos correntes superiores a 2.000 bilhões de dólares Paulson determinou que o grupo absorvesse o Wachovia Bank, um banco enorme, que estava na iminência de quebrar.
Menos de oito semanas depois foi a vez do Citigroup revelar-se na mesma situação.
Com o seu valor de mercado reduzido a menos de 10% do que era em 2006, e na iminência do colapso – o Citigroup e o Governo americano identificaram otimisticamente um conjunto de cerca de 300 bilhões de dólares de ativos problemáticos (menos de 1% do total de papeis derivativos) e acordaram um complicado negócio de transferência de ações que na pratica levará o governo a absorver todas as perdas acima de 55 bilhões, e com elas, o Grupo inteiro.
Tornando ainda mais séria a situação, o Citigroup tem uma carteira maciça de cartões de credito – 185 milhões de contas em todo o mundo – que mesmo antes dos recentes episódios estava apresentando perdas por inadimplência 67% maiores que as de um ano antes e, pior que isso, com um número de clientes com mais de 90 dias de atraso muito acima desse patamar, prenunciando uma segunda onda de inadimplências que vai se somar à das hipotecas e agravar a situação dos "derivativos".
Pois, importante realmente é o fato de que do total mundial de mais de 500 trilhões de dólares de papeis derivativos (ver postagem de 25.10.2008 - a "bomba de destruição em massa"), identificados pelo BIS (Bank of International Settlements), 181 trilhões eram ativos de bancos americanos, mais 95% deles resultando de negócios feitos diretamente entre comprador e vendedor ("over the counter"), sem intervenção de qualquer agência intermediária ou reguladora.
Desse total 168 trilhões concentram-se em três grandes grupos, sendo um deles o Citigroup.
Segundo os dados de 2008 do OCC (Office of the Comptroller of the Currency), a principal unidade do grupo, que é o CitiBank, tem em seus ativos algo da ordem de 37.100 bilhões (37,1 trilhões) de dólares dependentes de papeis derivativos, mais do que cinco Lehman Brothers, cuja falência já trouxe à beira do abismo o sistema financeiro mundial.
O risco do Bank of América é ainda maior -- 39,7 trilhões.
E o JPMorgan Chase, o maior de todos, com o dobro disso: 91,3 trilhões. Isto é, apenas um banco fazendo apostas de imenso risco, envolvendo uma quantidade de dinheiro equivalente a 13 Lehman Brothers, mais de 6 vezes a produção total da economia dos Estados Unidos !!
A escala das perdas escondidas nessa sinfonia de trilhões é tão enorme que, se não ocorrer antes, é bem possível que um dos primeiros atos do novo Presidente Barak Obama tenha que ser a decretação de um feriado bancário, seguido da completa nacionalização dos grandes bancos, de modo a assumir todos ativos podres e as correspondentes perdas, na esperança de fazer novamente fluir os mecanismos de credito emperrados.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
E agora... e o petróleo ???
Com a economia em expansão é certo que o preço do barril de petróleo tenderá para as alturas sempre que houver pouca folga entre a demanda e a capacidade máxima de produção.
Foi o que ocorreu à partir de 2006, até o primeiro semestre de 2008, quando a demanda mundial por combustíveis líquidos, oscilando no entorno dos 85 / 86 milhões de barris/dia ficou igual ou ultrapassou a capacidade de produção – causando a baixa dos estoques comerciais e estratégicos e levando os preços do barril de petróleo para mais de US$ 120.
A partir de julho de 2008 a queda de consumo nos paises desenvolvidos foi suficiente para gerar uma pequena folga entre demanda e capacidade de produção.
Esse fato, somado às repercussões econômicas da crise financeira, levou rapidamente o preço do barril para menos da metade do que chegou a custar em julho.
No corrente mês de novembro os dados fornecidos pelos relatórios “Short-Term Energy Outlook”, da USA Energy Information Administration – EIA, e “World Energy Outlook”, da International Energy Agency - IEA (ONU), ambos datados de 12.nov.2008, nos fornecem uma boa perspectiva da provável evolução da situação.
Os números apresentados mostram que, à despeito da crise, o crescimento da demanda em países não pertencentes à OECD (Organization for Economic Cooperation and Development), especialmente a China, América Latina e países exportadores do Oriente Médio, deverá compensar mesmo fortes declínios de consumo nos Países da OECD -- como está ocorrendo em 2008, onde apesar da queda de 1 milhão de barris por dia, constatada no consumo americano, está se verificando um aumento global do consumo da ordem de 100 mil barris diários.
Desse modo, a demanda por hidrocarbonetos líquidos (petróleo convencional + não convencional + líquidos condensados do gás + ganhos de refinaria + bio-combustíveis + sintéticos) até o final de 2008 está se mantendo na faixa dos 87 milhões de barris por dia, em media, sendo 74 milhões referentes a óleo cru (petróleo) -- níveis que se projetam virtualmente estáveis em 2009.
Mas o exame dos dados da EIA revela taxas de declínio anuais na produção de óleo cru que chegam a ultrapassar 20% nos campos de águas profundas -- que são os que decaem às maiores taxas -- sendo de 6,7% ao ano a media ponderada referente ao declínio da produção do conjunto dos campos atualmente existentes, o que significa a necessidade de aumentar cada ano a produção total (petróleo novo + líquidos em geral) em cerca de 5 milhões de barris diários (6,7% x 74 = 4,96), apenas para manter a produção global estabilizada.
Para atender ao crescimento da demanda após uma crise de curta duração a EIA projeta que até 2030 seria necessário somar 64 milhões de barris por dia à produção presente, o que exigiria um investimento absolutamente colossal, ano após ano, coisa virtualmente impossível em caso de depressão prolongada, e que exigiria preços do petróleo na casa dos US$ 80 / US$ 100, que é o mínimo custo estimado do barril adicional de petróleo extraído de águas profundas ou de jazidas de areias betuminosas como as do Canadá.
De qualquer modo, neste seu relatório de 2008 a IEA está prevendo para 2030 um preço de US$ 200 por barril, numa primeira demonstração de que está começando a reconhecer a verdadeira dimensão de uma crise enormemente subestimada nas avaliações anteriores.
Em suma, quanto mais demorar o retorno ao patamar de US$ 100 dólares o barril, mais provável será que por falta do investimento adequado a queda de produção venha a tornar difícil satisfazer a demanda, mesmo que ela, catastroficamente, se estabilize, ou lentamente se eleve acima do atual nível dos 85 / 86 milhões de barris diários.
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